A gata e a morte

30/12/2011

Eu até gosto dos animais, mas de uma forma comedida. Acho legal a possibilidade de tê-los por perto mas a obrigação agregada me incomoda. Enfim, tento explicar que sou simpático aos animais – simpáticos – e era simpático a esta gata, pois havia uma gata.

Esta gata ficava sempre ao portão. Em algum momento ela passou a parar ali pois alguém, se não me engano, colocava comida em um pote. A gata era simpática, miava na medida certa, cativava na medida certa, sendo meiga. Eu esqueci de especificar que, apesar da minha simpatia aos animais, sou tanto quanto antipático aos gatos. Acho bichos interesseiros de mais, chegam perto apenas para vantagem e estarão sempre olhando para você desconfiado, como se fosse um inimigo, uma ameaça. De qualquer maneira, esta gata era diferente. Sabia me cativar mesmo que, ainda assim, fosse mais um animal interesseiro.

A gata, como eu disse, ficava ao portão. Eu trabalho de madrugada e, era muito comum que, ao sair e ao chegar, ela estivesse por ali. Cativante como era, eu passei a comprar comida para ela e a alimentar com especiarias delicadas. Ela me fazia sentir bem de alguma forma, com sua dependência e servidão interesseira, eu a mimava com guloseimas. Desenvolvemos uma relação ao longo de alguns dias – e noites – e nos cumprimentávamos, sentíamos – gosto de fantasiar – falta um do outro.

Certo dia eu comprei uma moto. A moto é do tipo bastante barulhenta e isso afugentava a gata. Ela se assustava de mais quando eu chegava e, por mais que depois de parar a moto e desligá-la, ela viesse se aproximar com mais segurança, ainda era possível ver a ressalva. Ela estava assustada e eu não parecia mais tão aconchegante ou atraente. Poucos dias se passaram, esqueci de colocar comida para a gata – já que saía mais de moto e ela acabava não aparecendo por isso, mesmo que eu não notasse – e ela, por isso ou por vontade aleatória, ficou em frente ao meu portão.

Neste dia em que esqueci a comida e a gata, parada, descansava ou esperava por algo, aconteceu de um carro que estava estacionado passar por cima de sua cabeça. Desculpe se fui direto de mais mas sou do tipo que não sabe muito bem como florear para uma notícia direta e objetiva como é a morte. A gata morreu, com sua cabeça esmagada.

Eu não soube disso. Curiosamente, cheguei em casa hoje e chamei pela gata, após parar a moto e desligá-la, mas ela não apareceu. – Bem, pensei, está por aí, descansando ou algo que o valha. Fui deitar.

Ao acordar, saindo, vi que havia sangue do lado de fora do muro. Fui perguntar sobre o que houve e descobri o destino da gata. Eu, perdão se é tema por demais funesto, sou obcecado pela morte – e pelo fato de que vou morrer – e qualquer coisa que a envolva, me envolve. A gata não está mais lá. Não mia mais, não a vejo gracejar, e talvez eu tenha tido culpa nisso. Pela negligência, pela omissão, pela frieza… Enfim, não pretendo me julgar e nem me culpo pelo fato. Apenas senti a clara necessidade de observar que, apesar de ela ter ido embora de forma brutal, para não mais voltar, sua cambuca de água e tigela de comida, continuam lá.

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