Steve Jobs

05/10/2011

Tem gente que se destaca, tem gente que se destaca muito, e tem gente que vira uma lenda. Steve Jobs está no campo das lendas, certamente. O cara não foi só um empreendedor de enorme sucesso, um visionário, um empresário ousado. Foi um ser humano que tentava mostrar alguma coisa, fosse por sua estratégia de marketing, fosse por ser realmente quem ele é, o que não faz diferença, afinal.

                Eu costumo dizer, nos meus rompantes de autoritarismo e ode à violência que, nos dias de hoje, falta uma identidade ao ser humano. Somos animais sociais, precisamos uns dos outros, nos organizaos em sociedade mas ser apenas humanos não parece – nem acho que deva ser, em verdade – conexão suficiente entre nós para que vejamos uns nos outros um semelhante digno de completo respeito e compaixão… falta algo.

                Uma das coisas que imagino ser parte fantástica do fenômeno Jobs é que, de certa forma, esta conexão foi um pouco oferecida por ele. A visão tecnológica, a quebra de paradigmas, reinvenção de conceitos, ousadia, rebeldia, agressividade empresarial, a assertividade com a qual o homem se ergueu e tomou as rédeas de suas vontades e crenças – ou interesses – é invejável. Fazer parte disso é fazer parte de uma vanguarda tecnológica que está revolucionando tudo e vai deixar as próximas gerações algo completamente diferente do que encontramos quando chegamos por aqui.

                Não colocamos máscaras e saímos às ruas mas fazemos parte dessa conexão. Acompanhamos a importância que os aparatos tecnológicos e redes sociais têm em tudo que acontece agora, inclusive mobilizações – sejam para finalidades estúpidas como brigas de torcidas ou, aparentemente nobres, como revoluções democráticas pelo oriente médio – enormes para lutar por um algo qualquer e, ter um apple, ter algo ligado diretamente a esta tecnologia e ter o melhor oferecido – pois convenhamos, o custo benefício pode não ser válido, mas a apple é o que há de melhor – faz a diferença na cabeça de muitos. De alguma forma faz o indivíduo sentir melhor. Ali, ele faz parte de um clube, ele, assim como outros  fãs dos produtos e suas funcionalidades, pensam diferente (“Think Different”  não poderia ser mais bem aplicado junto nenhuma outra logomarca) e agem diferente.

                Na maior parte do tempo o movimento da mudança é incômodo. Quebrar as correntes da inércia e fazer alguma coisa é um processo doloroso, mas há quem consiga fazer com que esse movimento seja natural, seja atraente, até divertido. Grandes líderes levam seus povos pelas suas palavras, conquistam pelos seus discurssos e fazem com que quem ali está, em meio à multidão que ouve o que é dito, olhe para os lados e sinta-se em débito com os outros, com o próximo. Em sumo, o discurso desperta a identidade daqueles que ali estão, os faz sentir iguais e, à partir da igualdade, os faz querer escolher uma direção para, de mãos dadas, caminharem juntos.

                Grandes líderes vêm e vão, poucos deles conseguem unir gente muito diferente, menos ainda conseguem unir ignorando grandes distâncias e, acredito, nenhum outro conseguiu até hoje fazê-lo por ser admirado pela forma como modificou – dinamizando ou não, a questão não é a praticidade – a vida de todos.

                Eu mentiria se dissesse que fico comovido com a morte de Jobs. Não seria de meu feitio até porque, em parte, contraria minhas crenças. Não acho que se deva chorar pelo que aconteceu, mas pelo que deixou de acontecer. Não acho que haja espaço entre tantas realizações para falarmos sobre o que poderia ter sido. Foi tão bom quanto deveria ser, ou melhor, e morrer sabendo disso não tem preço, entretanto, seria ainda menos verdadeiro dizer que, agora, não grita nele um exemplo do que pode vir a ser. Talvez o momento mais importante da revolução da apple seja, com a morte de Jobs, ter os olhos de tantos jovens sedentos por transformações apontados para um mesmo ícone que qualquer um gostaria de seguir. Um bilionário que consegue – verdadeiramente ou não – fazer acreditar que a coisa mais importante a se fazer é trabalhar no que se ama, no que se acredita, não se encontra todo dia, afinal.


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