Do ódio e seus desdobramentos

19/09/2011

Nunca fui, desde que me entendo por gente, do tipo inclinado ao amor incondicional e perdão infinito. Tenho sim uma leve simpatia pela vingança, pela mágoa e pelo rancor, e acho que não soube balancear direito isso tudo quando era mais novo. Odiei muito, muita gente, e me cansei de odiar. Odiar é uma tarefa cansativa e, em grande parte dos casos, só prejudica quem odeia.

                Ao contrário do que possa indicar, não vem aí uma reviravolta na qual eu descubro que não odiar é a solução e que fazer o bem e perdoar é que estão com tudo. Não, nem tanto nem tão pouco. Tal qual odiar sempre cansa, perdoar sempre também. Nem sempre se está pronto para perdoar e, vou além, acho que nem sempre perdoar esteja certo. A idéia do perdão como ato nobre e fantástico por parte de um ser humano me soa como um exagero de proporções bíblicas. Não é natural sofrer e optar por absorver este sofrimento sozinho.

                Há, na coisa do perdão, uma idéia fantasiosa idealizada por sei lá quem, de um algo nobre ao qual se serve. Não vamos propagar a violência, o rancor, o ódio, eles dizem, mas isso, na verdade, me parece apenas duas coisas: Arrogância e covardia. Ora, perdoar tudo o que acontece é, ao mesmo tempo, a covardia de confrontar um problema que há, cedo ou tarde, de ser enfrentado – excetuando se vamos deixar o tempo apagar as mágoas e sofrimentos, mas não estamos tratando dos poderes curativos do tempo aqui – e arrogância de achar que você é a pessoa mais indicada para decidir quais atitudes do outro deverão recair sobre ele e quais serão reivindicadas por um terceiro com o dom do perdão. Não somos nós os mais indicados para fazer esta escolha e, principalmente, por mais que seu senso de justiça queira acreditar, dificilmente estaremos perdoando o outro e não a nós mesmos.

                Temos que, em algum momento, aprender a aceitar e lidar com a responsabilidade das escolhas que fazemos. A toda ação corresponde uma reação e agir sem jamais enfrentar as conseqüências de seus atos é um sério impedimento para o aprendizado. Sim, estou, portanto, dizendo que só perdoar o tempo todo, só amar e compreender, é errado. É tão prejudicial quanto – ou mais – do que propagar o ódio de forma ativa. Nesta singela omissão de fazer com que outros confrontem-se com suas conseqüências fazemos com que, talvez – pode ser que haja um pouco de poesia na afirmação – quem agiu e gerou problemas sequer chegue a saber que errou, quanto errou e, principalmente, quais seriam as conseqüências deste erro.

                Não quero, preciso deixar claro, falando em erros e acertos atribuir um valor definitivo que deva ser seguido, mas quando falo em erros e acertos, falo de uma coisa que, apesar da subjetividade, é bastante objetiva. Falo de responsabilidade e, aqui, considero errado não arcar com ela, e certo aceitá-la, junto de suas conseqüências.

                Acho que acabamos criando um mundo de problemas em qualquer relação pelo tal do perdão e do quanto concedê-lo foge à nossa natureza. Se gastássemos menos tempo e energia perdoando e mais deixando claro onde se vê um erro e queimando força de vontade para cobrar as conseqüências de todos que erram conosco, teríamos, acredito, relações mais duradouras ou, na pior, mais sinceras. A força de compreender algo que não consideramos aceitável não é uma virtude.

                Acredito, voltando à coisa do perdão e da idéia de que perdoar é correto, que parte do motivo que deveria levar a perdoar é o conhecimento do “erro” e o arrependimento por parte do autor do mesmo, mas como alguém há de se arrepender sinceramente de algo se, no fim, tudo ficou bem? Desculpe a honestidade, mas se eu pudesse simplesmente ir à rua e matar um desafeto para, depois, num julgamento apenas me declarar arrependido, profundamente arrependido, e ser liberado sem sofrer sanções legais, não sei se já não o teria feito. Claro que o exemplo é extremo pois trata-se de tirar uma vida e tudo o mais mas, resguardando as devidas proporções, convenhamos, deve-se perdoar quem é digno do perdão, a princípio e, mais a frente, no tempo em que for digno do mesmo.

                Advoguei, um pouco, à causa da vingança e, agora, advoguemos à causa do perdão. Ora, confrontar o erro, arcar com as responsabilidades, são coisas que acontecem imediatamente depois do problema. Se o tempo passou e nada foi feito, ou você foi fraco ou covarde – ou ainda preguiçoso – para fazer o que deveria ter feito e, passado o tempo, carregar o rancor é estupidez.

                Acho que sou tão a favor da tal vingança porque bater de volta nivela as pessoas. Ninguém vai se sentir em um patamar superior de virtude onde não errou enquanto o outro errava. Não, nos nivelamos, nos agredimos, nos ofendemos. Erramos na tentativa de lidar com o erro e, daí, acertamos. Posso perdoar depois de agir da forma que acho que deveria ter agido. Daí sim, vem a força necessária para seguir em frente sem pontos mal dados desfazendo suas roupas no futuro. Ate seus nós antes de deixá-los para trás pois é a garantia de que tudo não vai se desfazer – ao menos não por pontos mal dados – no futuro.

                Cada vez que você releva – eu, pelo menos – um erro de alguém para poder continuar agindo como se nada tivesse acontecido, você “perdoa” por você e não pelo outro. Se apanhou, bata, e arrependa-se mas arrependa-se de ter batido, não de ter apanhado em silêncio. Desta relação honesta é que sai um perdão honesto e não o perdão que cobra o reconhecimento de terceiros. O perdão que basta por si só e não pelo quão atrativa é a idéia de ser considerado nobre o suficiente para perdoar.

                Agora sim, citando o tempo e suas propriedades, tudo vai, devagar, assentando, as coisas, certas ou erradas, vão perdendo a importância e passando a pintar o quadro de um passado que por mais que o torne que é hoje, não afeta mais. É lembrança distante que serve para aprender, para contemplar, não para viver como se aquilo fosse o presente. Afinal, mesmo que eu não concorde com a proposta da frase, eles, que atravancam meu caminho, eles passarão, eu, passarinho.

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