Um sono, um sonho

02/05/2011

Alguns dias atrás, não por precisão histórica, mas por conveniência da data, completou-se um ano que eu dormia. Um ano inteiro em que tudo o que parecia ter sido vida, foi, ora sonho, ora pesadelo.  Neste sono enorme, como em qualquer outro, havia outros personagens. Interagi com várias pessoas, as conhecia, discutia, concordava, brigava… Enfim, da forma confusa como acontece no mundo dos sonhos, tudo aconteceu na minha vida. Passei de 2010 para 2011, mudei dos 28 para os 29 anos. Curiosamente este sonho transcorreu de forma lógica. Eu fazia as coisas normais do dia a dia, comia, dormia, estudava, namorava…

O problema é que, nos sonhos, nunca fazemos nada por completo. Estamos à mercê dos caprichos do inconsciente e, bem sabemos, ele pode ser muito melindroso (vide os traumas e recalques que ele resolve enterrar nas profundezas de sua mente por motivo qualquer). O cérebro tem, em conluio com o inconsciente, claro, esta coisa quase militar de manter a integridade e bom funcionamento do seu hospedeiro e, às vezes, estas defesas só machucam.

Enfim, sonhei por longa data. Neste sonho aconteceram várias coisas memoráveis mas, sem dúvidas, a maior delas foi esta relação que vivi. Lembro que, apesar de eu saber que estava muito feliz, não conseguia agir de acordo com a tal felicidade. A mecânica do sonho me envolvia de forma que me era lógico só oferecer se eu recebesse em troca e sabemos bem de como funcionam estas lógicas oníricas… É como se houvesse uma tabela em que havia do lado direito o que eu faço, e do lado esquerdo o que eu quero em troca. Se não há recíproca, não há entrega. Pode parecer estúpido, acho até que seja, mas, como eu disse, sabem bem da forma ilógica com que os sonhos estruturam a coerência.

Uma coisa que me chama atenção agora é como não parecia necessário agradar esta parceira. No mundo onírico, afinal, as coisas são todas criadas por mim. Elas existem para satisfazer minhas indulgências e não precisam ser aduladas. Elas existem, e isso deve bastar a elas, mas, fosse ou não assim, em algum momento as coisas começaram a mudar. Eu, lá, entorpecido, adormecido, só era. Ela, lá, linda, brilhante, chamativa e colorida como se é nos sonhos, sentia falta. Faltava a tal adulação. Faltava ser reconhecida, faltava que eu a olhasse e, com a gratidão que um devoto agradece aos céus pelo que de bom lhe acontece, dissesse: Graças por você! Àquele sonho não bastava a existência. Era bom de mais pra ser vivido da forma confusa com que os sonhos são levados. Era sublime, especial, e exigia ser reconhecido como tal.

Eu poderia narrar aqui em detalhes, tantos quanto consigo me lembrar, tudo o que vivi neste tempo, mas seria inútil. O fato em si não é o que se viveu, mas o que se deixou de viver. Certo dia, pouco tempo depois de o sonho ter completado um ano, acordei. Com a típica confusão de quem acorda, com a típica surpresa de quem sonhou demais, levantei. Fui procurar um cigarro, mas não achei. Fiquei em dúvida se eu realmente fumava ou se foi apenas o hábito do sonho que me deu esta impressão, já que, no sonho sim, eu fumava. E muito. Talvez pela ansiedade de saber, lá dentro, que um dia aquilo tudo acabaria de forma abrupta, rápido como um abrir de olhos. Enfim…

Ali, acordado, sentei. Eu sempre preferia ter pesadelos e sempre fui muito incompreendido com isso. A vantagem do pesadelo é que, quando acordamos, voltamos para uma realidade melhor. Nos sentimos aliviados. Adoramos o fato de termos acordado! Ali, sentado, tudo me faltava. Me faltavam os cigarros, me faltavam os hábitos, me faltavam as expectativas, me faltavam as pessoas e, nossa, me faltava ela.

Por horas eu refleti sobre este sonho. Aproveito o tamanho da confusão para esquecer quem eu era antes de dormir. Penso apenas em quem eu queria ser depois de acordar. Sei que, por mais que se tente, dificilmente conseguimos voltar para um mesmo sonho e, mesmo assim, só acontece quando o tempo acordado é mínimo. Já levantei, andei, bebi água… Não poderia, por mais que eu tentasse, voltar a tudo aquilo. De qualquer maneira não é no sono, não é na inércia, que eu a encontraria. Afinal de contas, o próprio sono e a própria inércia foram o que me fez perder o que eu tanto prezava. É deles que devo fugir.

Incrível como as coisas acontecem de forma caoticamente orquestrada. Lembro que pouco antes de ir dormir e sonhar o tal sonho, assisti a um filme. O filme falava sobre um jovem de 23 anos a quem tudo incomodava. A vida cotidiana, as relações que estabelecia, o desajuste entre seus semelhantes. Cheio de toda essa pressão, o jovem resolve se lançar ao desconhecido. Aceita sua solidão que, convenhamos, é inerente ao ser, e parte sozinho para viver um pouco. Claro, há uma boa dose de radicalismo na forma como o rapaz escolheu seu isolamento. Somos, sim, sozinhos, mas temos nossos momentos de união. Temos as pessoas com quem partilhar nossas pequenas coisas e, aí, nos sentirmos acolhidos. De qualquer forma, isso é suficiente para se saber sobre o filme e, portanto, não falarei mais a este respeito.

Eu vivi na calmaria. Eu vivi a calmaria. Me escondi em um sonho, me escondi da tempestade, mas acordei, e chove. Gosto de pensar que, talvez, esta tempestade seja o pesadelo e, em breve, acabo dormindo novamente e descobrindo que minha realidade é menos opressiva. Talvez, para lá da barreira do sono, tudo seja muito melhor, menos solitário, mas sei também que este é o tipo de esperança irreal que só existe para nos fazer continuar. Flertamos com a possibilidade de acontecer algo extraordinário que sabemos ser incrivelmente improvável.

Daria tudo para voltar ao sonho. Perceba, voltar ao sonho, não a dormir. Dormir é uma maneira eficaz de pular algumas horas, dias, anos, mas não vai me trazer o que perdi. Se não posso voltar ao sonho, se preciso viver contentado com a falta, devo me ocupar, me animalizar. Eu sei que há algo que me chama, mas não sei o que. Não sei quem. É como se a presença só existisse para, na falta, me fazer buscar. Me iludir com o preenchimento de um vazio para que, agora, mais que nunca, eu tente preenchê-lo.

Hoje, enquanto estou acordado, enquanto sinto falta de tudo o que, talvez, jamais tenha chegado a ter, enquanto me pergunto sobre meus cigarros, sobre minhas ambições e sobre meu amor, o filme passa novamente.

Sei que me falta a coerência, talvez até o motivo, mas precisava tentar algo. Esperava que colocar as coisas no papel desta maneira me ajudasse, talvez, a entender a lição que talvez eu possa tirar disso tudo. Uma coisa que não me sai da cabeça é que, se fossemos mais receptivos ao aprendizado, se todos gostássemos mais de entender a forma como lidamos com as coisas, no ruim de tudo, depois de toda relação restaria um carinho pelo aprendizado. Saber no que erramos, se usarmos da lógica, deveria nos fazer errar menos dali em diante e, sabendo disso, por que não nos felicitarmos com os erros que não cometeremos amanhã e depois? Sabem, as relações românticas, como parte da vida, são estruturadas e acontecem em harmonia com nossos hábitos e atitudes do dia-a-dia. O problema é buscarmos algo para que, ao alcançá-lo, possamos descansar. Descansar não faz parte do propósito da vida. A acomodação é um pé na cova. Teremos toda a morte para não sentir a ausência e, até lá, é a ausência que nos mantém vivos. Enfim, cuidado, meu caro, para que na fluência de suas acomodações, não esteja dormindo. Cuida, com cuidado, para que, caso durma, acorde e, muito mais importante, caso sonhe, acorde, levante, e viva. Deixe o sono para quando o sonho e a possibilidade de sonhar forem passadas.

Cuida-te para que, jamais, durma durante seus sonhos.

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