Inocência

05/04/2011

Eu lembro, não claramente ou com uma análise clara sobre a questão, de gente falando sobre inocência, principalmente nos anos mais tenros, e lembro que, mesmo pouco, pensava a respeito. Certo, conforme vamos crescendo e vendo como as pessoas agem, começamos, timidamente, a dizer sobre um ou outro, mesmo que para nós mesmos, algo como  “nossa, que inocente”.

Quando estes primeiros ensaios de críticas à inocência alheia começam, geralmente ligamos, ou ao menos eu ligava, essa coisa da inocência com uma visão muito bondosa das coisas. Vamos dizer que, alguém que convidasse de súbito um outro alguém para um algo muito interessante, caro, ou atraente por qualquer motivo, tinha algum interesse por trás. Seria, daí, inocente da pessoa que é convidada não perceber que havia alguma segunda intenção, qualquer que fosse, por trás daquele, aparentemente, inócuo gesto.

Que orgulho – pensava eu comigo – percebo que o tal cara quer comer a tal menina, que o tal empregador quer tirar mais do funcionário, que a bajulação da criança esconde algum pedido aos pais. Assim se formou minha primeira visão sobre a inocência. Quando os velhos passavam e falavam “blá blá inocente”, eu pensava “é, sei do que este velho fala”.

Anos passaram. Certo que eu tenho esse hábito que, por mais que seja de meu gosto, também me incomoda bastante, de ficar questionando as coisas à exaustão, mas acabei caindo na fossa da inocência. Agora, mais maduro, qual seria a definição de inocência que se enquadraria bem na minha percepção de mundo? Seria inocente, certamente, pensar que a visão de inocência que desenvolvi tantos anos atrás e com tão pouca experiência de vida, estaria totalmente correta, não?

Achei, daí, que a tal inocência tinha muito a ver, não apenas a crença de alguém em uma atitude específica qualquer de um outro, com suas crenças em geral. A inocência, se voltarmos aos primeiros exemplos, seria a inabilidade da pessoa de ver que determinadas coisas não são reais apenas por que lhe convém. Sem entrar no mérito da verdade, real, ou mais real, é o que fornece mais indícios. Não ver por não poder ou não querer ver por não convir não torna um fato mais real, torna o observador mais ingênuo.

Muito bem, posto que este hábito de acreditar em coisas que se evidenciam contrárias seria corretamente chamado ingenuidade, começa a necessidade de definir a causa disso, o objeto “ingenuador”. Ora, evidências de que um convite qualquer seja malicioso fazem com que terceiros julguem alguém por inocente mas, verdade é que, apesar das evidências, o convite pode sim ser sem interesse. Neste caso, os fatos iriam contrariar os números e ser uma espécie de exceção da regra, mas, afinal, toda regra tem a sua. Então, acreditar em alguma coisa que tem uma chance muito pequena de ser verdade poderia ser considerado inocente? Acreditar na preocupação social da empresa, na idoneidade do político, na retidão da auditoria… Acho que se colocado desta forma, não existe uma pessoa no mundo que não seja de alguma forma inocente. Não há quem de nenhuma forma faça uma, mesmo que leve, distorção na percepção de suas ações ou expectativas para continuar lúcido. Não culpo esta pessoa, de maneira alguma. Que seria da vida sem nenhuma esperança? Se tornarmos a probabilidade de todo e qualquer acontecimento mera estatística, em algum momento o infeliz surta. Em algum ponto limite o “espero que aconteça” se transforma em “vai acontecer”. Não há evidência, claro de que vá acontecer, mas não vou pular daí a chamar o sujeito inocente por se ater a alguma coisa. Eu mesmo, no mínimo, me prendo a crença de que sou uma pessoa inteligente, com uma boa visão crítica, e não sei se há empirismo que pudesse me derrubar esta crença.

Enfim, mesmo que eu tenha perdido o foco ao longo do texto, acredite no que quiser. Quando chamado de inocente, saiba que a pessoa que te chama com certeza partilha da sua inocência, lembre apenas, que a única inocência excessiva, seria acreditar que, em você, em sua visão de si próprio e da forma como se relaciona, não há inocência alguma.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.