Justiça Cega
29/03/2010
Recentemente votamos a nos deparar com o caso dos Nardoni sendo noticiado incessantemente, com a proximidade do julgamento e a decisão do Júri popular. Eu, particularmente, ao mesmo tempo que fico fascinado com uma coleção de aberrações presentes na forma como a mídia tratou o crime, tenho um enorme asco pela hipocrisia que este tipo de situação explicita.
Ouvi mais de uma vez falarem que o motivo de todo o clamor popular acerca do caso era a sede de justiça. O caso representaria um ícone da justiça e a nova era que a mesma vive em nosso país. Confesso que não consigo enxergar, nem de perto, no que a decisão deste júri interfira na vida de qualquer cidadão, que não os envolvidos afetivamente com os participantes.
Chegou a haver a presença constante no julgamento da escritora Glória Perez que, como amiga da família, estava mais do que no direito de se colocar ali, mas como figura pública disseminando sua opinião arbitrária nos meios de comunicação, consistia em uma das bizarrices às quais sinto esta repulsa. Veja bem, não discuto aqui o crime, se são ou não culpados ou o efeito da crueldade do assassinato, apenas questiono a abordagem da mídia, que neste tipo de caso, abre mão oficialmente da imparcialidade.
Não sei, honestamente se os réus são de fato culpados. O que eu vi, claro, como nada mais que um leigo curioso, colhendo as informações que a mídia impressa me traz no periódico que assino, é que os indícios de fato apontam para o casal de uma forma extremamente contundente, entretanto, ao mesmo tempo que sugere que eles tenham sido os autores, não consegue provar. Não conseguir provar, verdade, não faz deles inocentes, mas apenas porque são acusados de um homicídio bizarro e comovente. Bem sabemos que escândalos políticos não provados são sumariamente arquivados, sem mencionar, claro, os que apesar das provas também não dão em nada.
Os réus já eram culpados muito antes da formação do júri. Passaram a ser culpados quando a demanda popular por tragédias começou. Neste momento eles foram, sem direito a defesa, condenados. Quantas vezes ouvi gente expressando o ódio e asco que sentia pelos culpados, sendo que a maioria destas pessoas, quando questionadas, não sabia nada sobre as evidências e argumentos que os investigadores, peritos e promotores usavam. Apenas concordavam, prestavam continência, por assim dizer, às manchetes dos jornais. Se dizia “ASSASSINOS” no cabeçalho, certamente se tratavam de marginais desalmados.
Ouvi poucas horas atrás o advogado de defesa comentando, por exemplo, sobre a desproporção da aplicação das penas. Convenhamos, aplicação das penas máximas à pessoas cujas ações não podem ser provadas parece um pouco exagerado, não? Ouvimos, logo depois de declarada a sentença, tanta gente comentando que a pena era pequena demais. Mereciam apodrecer na cadeia e barbáries do gênero. O que este público manipulado pela imprensa quer não é justiça, é algo entre vingança e puro sadismo.
Recentemente tivemos um indício do tipo de coisa que o povo deseja:
Um dos autores do crime contra o menino João Hélio foi, algumas semanas atrás, beneficiado pela progressão de sua pena, podendo já cumprir em regime semi-aberto, além de ter recebido de uma ONG o direito a uma bolsa que custeava seus estudos ou algo assim. O menino, que foi encaminhado para uma instituição de reabilitação de menores logo após o crime, foi um dos raros casos de um delinqüente juvenil que terminou seus estudos, o ensino médio, no caso, cumprindo pena.
Acho interessante citar este caso pois tem algumas semelhanças com o caso dos Nardoni no que diz respeito ao tratamento dispensado pela mídia e, principalmente, no espírito suíno, na vontade de chafurdar na lama que domina estes curiosos que cercam tribunais e delegacias e tenta agredir advogados de defesa e réus. Essa gente não quer justiça. Nunca quis. Quer um “Judas”. Não importa muito se o Judas é ou não culpado de alguma atrocidade. Interessa o que a maioria pensa. Linchar alguém só é imoral se o grupo que deseja fazê-lo é pequeno. Tendo gente suficiente disposta a participar, vira festa da justiça popular.
Os meninos que arrastaram o João Hélio estavam desarmados. Eram jovens, gente que cresceu nas favelas, educados pelas escolas, quando educados. Escolas públicas que são declaradas pelo governo instituições sem qualidade, afinal, por que outro motivo haveria cotas para estudantes oriundos da rede pública de ensino? Eram jovens, marginalizados, que não tiveram educação e oportunidades dignas porque os impostos desta mesma gente que quer linchar os Nardoni foram desviados por algum político, cujas mãos eles apertam com sorrisos ao receber uma camiseta com a cara do meliante estampada. Cometeram uma barbárie, claro, mas isso tira de qualquer um deles o direito à reabilitação? Os jovens não têm mais o direito de se endireitar? O que falta nesta gente é fé na reabilitação, na justiça, ou humanidade, compaixão? Eu arriscaria que o que falta, além, é claro, de educação e cultura, é auto-estima.