Consumidor Brasileiro
23/03/2010
Salgado, um pobre infeliz que precisa se sujeitar aos caprichos dos serviços essenciais privados do seu estado, no último domingo viveu um dia que resume sua condição de consumidor. Ao meio dia, mais ou menos, de o que dizem ser um dia lindo (ele próprio discorda. O dia era quente demais e claro demais, mas…) faltou luz. Ele estava em casa, fazendo alguma coisa qualquer quando tudo apagou.
Ele, que não queria de forma alguma sair de casa naquele sol terrível esperou um pouco para ver se a luz voltava. Mais de uma hora passou, o calor aumentou, a falta de um ventilador ou ar-condicionado se tornou insuportável e ele resolveu sair. Foi avisado, enquanto estava na rua, que um pouco depois das 16:00 do mesmo dia a luz retornou. Bom – pensou ele – posso voltar para minha casa e continuar meus afazeres usuais de um final de final-de-semana.
Terminava de assistir a um jogo de futebol quando começou uma chuva inacreditável. Enquanto se preocupava em como retornar para sua casa, recebeu uma ligação e foi comunicado de que novamente faltava luz (eram aí por volta das 19:00 horas). Resolveu passar mais tempo fora para minimizar o desconforto da falta de energia. Horas se passaram, resolveu voltar para sua casa, já perto do amanhecer, quando, certamente, a luz teria retornado e ele poderia dormir confortavelmente.
Virando a esquina viu tudo apagado. Ficou extremamente decepcionado mas não era o fim do mundo. Estava cansado o suficiente para dormir, mesmo com o calor infernal que fazia. Nada que um banho frio e ir direto para a cama não resolvesse. Dito e feito. Banhou-se, foi deitar ainda molhado e conseguiu dormir. Acordou às 09:30, suando em bicas. Ainda faltava luz.
Decididamente era impossível continuar aturando aquela situação, portanto, levantou-se e foi verificar junto a concessionária que prestava o serviço de iluminação na sua cidade (Light). Com uma conta telefonia em mãos foi ao único telefone da casa que funcionava mesmo sem energia e ligou. Ouviu uma mensagem da operadora de telefonia fixa que lhe atende (Oi ou Telemar… Ele não sabia mais qual era o nome) dizendo: “Este número não corresponde a um serviço ativo”
“Estranho” – pensou. Ligou novamente, e ouviu a mesma mensagem. Ligou mais algumas vezes e sempre ouvindo a mesma mensagem. Desistiu de tentar falar com o número do serviço de emergência e ligou para a ouvidoria da empresa. Ocupado. Mais algumas tentativas e o sinal de ocupado permanecia.
Incerto sobre se os telefones estariam corretos, ligou para o serviço de auxílio à lista telefônica (No rio, Telemar – ou OI – é o 104). Um máquina o atendeu. Ele particularmente se revolta muito quando é obrigado a falar com uma máquina. Chamou sua irmã e ficou ao lado dela enquanto ela conversava com o tal robô tentando conseguir o telefone de emergências da Light.
A máquina disse:
- Diga o nome do serviço que procura.
- Light – disse ela.
- Você pediu por Smart Delivery – disse a máquina
- Não – retorquiu sua irmã
- Diga o nome do serviço que procura – repetiu a máquina
- Light – disse sua irmã
- Você pediu por Smart Delivery – respondeu a máquina.
Patrícia, sua irmã, repetiu o processo algumas vezes até que por providência divina, sorte, acaso, falta de luz… Algum motivo qualquer fez com que sua ligação saísse das mãos do robô para um atendente de carne e osso. Ela pediu novamente o telefone da Light e finalmente lhe dera. Era o mesmo que tentaram ligar mais cedo e a Telemar (ou OI) informou não ser um número de serviço ativo.
Inconformados com a impossibilidade de reclamar, retomaram seus afazeres. Ela foi para a faculdade e ele para a auto-escola. Aí regulavam as 11:00 de segunda-feira. Quando retornou para sua casa, lá pelas 19:30, constatou felicíssimo que a luz havia voltado. Ele conseguiria dormir sem desidratar, ouvir música, usar a internet… Assim pensava. Ligou o computador e notou que havia algo de errado com sua conexão. Foi verificar os componentes e viu que o modem havia queimado. Pegou o telefone sem fio que, ao menos ele, agora funcionava. Ligou para a Oi Velox, sua operadora de internet banda larga. Um robô atendeu sua ligação. O robô insistia em querer ouvir da boca do pobre rapaz, que já beirava um surto psicótico, qual era o problema. Ele tentou, depois de apenas xingar a máquina por minutos a fio na esperança de que um ser humano o atendesse e disse:
- Reparo!
No que a máquina retrucou:
- Entendi! Serviços.
Depois de algum tempo, ele, malandro, conseguiu descobrir um “atalho” para fazer a máquina transferi-lo para um humano. Este novo caminho o fazia perder apenas uns 2 minutos, e não os 4 ou cinco com os quais estava habituado. Tentou umas 8 ou 9 vezes ficar esperando por alguns minutos o tal ser humano que, para sua surpresa, não foi nada mais cordial que a mulher de lata. Sequer diziam “Oi”. A ligação apenas caía.
Era demais. Ele não conseguia mais passar por aquele constrangimento de ser caçoado por uma máquina. Desligou o telefone e esperou para no dia seguinte entrar em contato logo nas primeiras horas da manhã para conseguir, finalmente, falar com alguém.
Daí por diante a via crúcis estava finalmente terminada. A totalidade dos serviços se restabeleceu umas 26 horas depois. Salgado sabia apenas que tinha que expressar sua revolta com a completa impotência e falta de respeito com a qual os usuários de serviços essenciais (Telefone, luz e água, que esqueceu de mencionar mas começou a faltar na segunda-feira pela manhã) são tratados por aqui. Queria ele ter o privilégio de precisar exagerar numa narrativa de uma situação hipotética mas, nem isso as concessionárias lhe permitiram, afinal, se exagerasse qualquer coisa a mais, precisava inventar um assassino com serra elétrica e camisa da Light ou Oi.